quarta-feira, 26 de maio de 2010

O homem, de Sophia de Mello Breyner



Era uma tarde de fim de Novembro, cerca de 4 h de um dia sem chuva nem sol.
Eu caminhava no passeio depressa, a certa altura encontrei-me atrás d'um homem pobremente vestido que levava ao colo uma criança loira, cuja beleza não se pode descrever. Passei á frente levada pelo movimento das pessoas, mas ao passar olhei para trás, o homem era extremamente belo por volta dos 30 anos com o corpo comido pela fome, a cara mostrava o belo desenho dos ossos e tinha olhos de solidão e de doçura.
Nesse momento o homem levantou a cabeça para o Céu


Como contar o seu gesto?
A sua cara escorria sofrimento;
Tinha uma expressão de resignação e de pergunta;
Caminhava muito lentamente do lado de dentro do passeio e muito direito;
Com a cabeça levantada olhava o Céu;




Mas o céu era silêncio!



O que fazer?
Era como nos sonhos que queremos agir e não podemos, tinha as mãos atadas, a sua solidão separava-o de mim, sentia a cidade empurrar-me e separar-me do homem, não sabia o que fazer. Tinha a alma e as mãos pesadas de indecisão, só sabia hesitar e duvidar, estava parada e impotente.
Por fim deixei-me levar pela onda de gente para longe do homem.
Mas a imagem do homem continuava suspensa nos meus olhos, havia alguma coisa ou alguém que eu reconhecia:
A cabeça levantada que olhava o Céu com expressão de infinita solidão, abandono e de pergunta.
E então percebi:

Pai, Pai porque me abandonaste.

Compreendi porquê é que o homem que deixara para trás não era um estranho, voltei para trás, subi a corrente do rio da multidão, temi tê-lo perdido, mas de repente vi-o. Tinha parado mas continuava a segurar a criança e olhar o Céu. Corri, empurrei as pessoas, estava a dois passos dele mas nesse momento o homem caiu ao chão, da sua boca corria um rio de sangue. Então a multidão parou e formou um círculo que me impedia de chegar e ver o homem. Depois veio a ambulância, quando o círculo se abriu o homem e a criança tinham desaparecido.
A multidão dispersou-se e eu fiquei no passeio caminhando levada pelo movimento das pessoas.



Muitos anos passaram e certamente o homem está morte, mas continua ao nosso lado nas ruas.

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