quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Saudade

Ah poderosa saudade que vem de madrugada enquanto todos estão dormindo.

Ah poderosa saudade que sonha de tarde enquanto todos estão trabalhando.

Ah poderosa saudade, noite com sol, estrelas em céu de meio-dia, não gostaria de tê-la, não gostaria de sofrê-la.

Ah poderosa saudade que ora é lembrança de alguém indo embora, ora é pressentimento de alguém voltando.

Ah poderosa saudade, que mistura os sentimentos e não nos dá entendimento.

Ah poderosa saudade, que é suspiro e falta de ar, que é formigamento e pontada no peito.

Ah poderosa saudade, afrodisíaco de um veneno, queda e voo, medo corajoso. Já não sei se espero em silêncio, já não sei se grito em desespero. Já não sei se escuto a voz dela vindo ou se a voz dela nunca saiu de meus ouvidos.

Ah poderosa e enganadora saudade, que converte implicâncias em sortilégios, que transforma falhas em virtudes, que unifica diferenças inconciliáveis de temperamento.

Ah poderosa saudade que se assemelha ao amor, mas pode ser carência.

Ah poderosa saudade que se aproxima da fé, mas pode ser miragem.

Ah poderosa saudade, que pede desculpa e não perdoa, que agrada agredindo, que conforta perturbando.

Ah poderosa saudade, que me tortura recordando alegrias, que me humilha com sua humildade, que me arrebenta com sua suavidade.

Ah poderosa saudade, essa alma de dois num só corpo, esse lençol de solteiro em cama de casal.

Ah poderosa saudade, que só se agiganta com a distância, que só aumenta com a ausência, que é uma indigência dentro de casa.

Ah poderosa saudade, esta reza sem paraíso, este esforço de imaginação para manter a memória.

Ah poderosa saudade, que me leva para longe mesmo quando estou parado, que me faz caminhar sem jamais pisar no chão, é o chão que se move e me carrega na escada rolante das palavras.

Ah poderosa saudade, é o cheiro dela em meu corpo, é o cabelo dela pelas roupas, é a boca dela em meu gosto.

Ah poderosa saudade, indestrutível saudade, que é imunidade e vulnerabilidade, que é transgressão e obediência, que é súplica e consolação.

Ah poderosa saudade, que brinca falando sério, que destrói rindo, que reconstrói chorando.

Ah poderosa saudade, contramão de nossa vontade, que joga lembranças boas quando estamos desistindo, que sopra lembranças ruins quando estamos resistindo.

Ah poderosa saudade, que parece me abençoar e maldizer ao mesmo tempo.

Ah poderosa saudade, violência do frio no quente, choque do quente no frio.

Ah poderosa saudade, tristeza cheia de esperança, alegria já terminando.
Ah poderosa, infernal saudade, impossível de matar, que volta toda vez mais forte quando sou assassinado de novo pelo sorriso dela.